domingo, 17 de setembro de 2017

Somos os aliens para todo um universo.

Segundo véu

Por trás do véu
A felicidade, embora ainda não soubesse, era palpável
Não me contentei com apenas observar
Segurei-a
Esmigalhei-a
Os cacos tem seus ângulos suavizados pelo véu
Enquanto eu quebro mais e mais
Sem sentir a dor
Uma mancha vermelha surge no tecido
Inicialmente um ponto rubro, contido
Logo tomando toda sua extensão
A primeira gota a cair no chão passa despercebida
Apresentando a leis físicas do líquido para nenhuma plateia
Continuo a destruir

Eco de um eco

Aprendi a gritar para dentro
Ainda escuto os ecos do meu primeiro choro
vibrando ácidos em meu esôfago.

domingo, 2 de julho de 2017

Nautilus

Adentrei-me em minha própria loucura
Um tanto quanto lunfárdica
Fui das risadas ao pranto
E na minha dinâmica
Enterrei-me no desencanto
Quando avistei as mesmas estrelas
E não me vi mais
Refletida 
Nelas

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

  Arrastei-me vagarosamente até a poltrona e acendi um cigarro. Olhei para o centro da sala, tentando ajustar a visão e entender minha situação atual. A lua lançava sua luz por entre as grades da janela, espiando curiosa através das cortinas e iluminando-o. Ele estava morto no chão. Estava do mesmo jeito desde que eu retomei a consciência, sabe-se lá há quanto tempo. É muito suspeito dizer que não lembro o que aconteceu? Pois, de qualquer jeito, esta é a verdade. Só posso ter sido eu. Só estamos nós na sala; eu na poltrona, ele no chão e a Morte sentada no armário de cristais, do outro lado da sala, balançando os pés (pés?) pacientemente. Ela não olha para mim.
  Minha mente está a mil, um momento sendo substituído pelo próximo em uma espiral infinita que se projeta para fora e não me dá tempo de processar. Tento, em vão, agarrar a ponta da espiral para fazê-la parar. Tontura. 
  Tento me ater ao momento presente. Sinto meu corpo caindo repetidamente dentro de uma queda livre preexistente. Estou sentada na poltrona. Uma cinza do cigarro cai no carpete e brilha muito antes de se extinguir. A mais fraca música vem do quarto; Jacques Brel cantando La Valse à mille temps, acelerando o ritmo com meus pensamentos.
  Olho de relance para o armário de cristais. Ela continua lá, austera, solene. Pergunto-me se ela veio antes ou depois de eu ter... feito o que fiz.
  Quero ligar para algum conhecido, mas me encontro incapaz de recordar qualquer sequência telefônica de números. Levanto o telefone e teclo aleatoriamente oito dígitos. Uma voz feminina sonolenta atende depois de quatro toques:
-Alô? ...alô?
tuuuuuuuu...
Deito da maneira mais confortável que a poltrona permite e puxo a manta para me cobrir, fechando os olhos e desejando unicamente dormir.
  Sinto uma presença logo atrás de mim. Levantando uma pálpebra, olho para o armário. Ela não está mais lá.
  E eu não vou me virar para ver.

sábado, 24 de setembro de 2016

Odiosa insônia


Meu céu tem úlceras causadas pela minha vontade de conhecer o que há lá fora, mas em vez de vislumbres, eu só recebo a dor. Meus dendritos são raízes fortes cravadas em minha cabeça; enxaqueca. Minhas digitais causam-me asco, espirais infinitas e ululantes do ser-eu que tanto quero não-ser. Sonhei com todas as armas deste mundo apontadas para mim, mas ainda respiro. 

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

desculpa, mãe.

Recebi o presente da vida, mas ainda não descobri como desembrulhar sem rasgar tudo.