terça-feira, 31 de janeiro de 2017

  Arrastei-me vagarosamente até a poltrona e acendi um cigarro. Olhei para o centro da sala, tentando ajustar a visão e entender minha situação atual. A lua lançava sua luz por entre as grades da janela, espiando curiosa através das cortinas e iluminando-o. Ele estava morto no chão. Estava do mesmo jeito desde que eu retomei a consciência, sabe-se lá há quanto tempo. É muito suspeito dizer que não lembro o que aconteceu? Pois, de qualquer jeito, esta é a verdade. Só posso ter sido eu. Só estamos nós na sala; eu na poltrona, ele no chão e a Morte sentada no armário de cristais, do outro lado da sala, balançando os pés (pés?) pacientemente. Ela não olha para mim.
  Minha mente está a mil, um momento sendo substituído pelo próximo em uma espiral infinita que se projeta para fora e não me dá tempo de processar. Tento, em vão, agarrar a ponta da espiral para fazê-la parar. Tontura. 
  Tento me ater ao momento presente. Sinto meu corpo caindo repetidamente dentro de uma queda livre preexistente. Estou sentada na poltrona. Uma cinza do cigarro cai no carpete e brilha muito antes de se extinguir. A mais fraca música vem do quarto; Jacques Brel cantando La Valse à mille temps, acelerando o ritmo com meus pensamentos.
  Olho de relance para o armário de cristais. Ela continua lá, austera, solene. Pergunto-me se ela veio antes ou depois de eu ter... feito o que fiz.
  Quero ligar para algum conhecido, mas me encontro incapaz de recordar qualquer sequência telefônica de números. Levanto o telefone e teclo aleatoriamente oito dígitos. Uma voz feminina sonolenta atende depois de quatro toques:
-Alô? ...alô?
tuuuuuuuu...
Deito da maneira mais confortável que a poltrona permite e puxo a manta para me cobrir, fechando os olhos e desejando unicamente dormir.
  Sinto uma presença logo atrás de mim. Levantando uma pálpebra, olho para o armário. Ela não está mais lá.
  E eu não vou me virar para ver.

sábado, 24 de setembro de 2016

Odiosa insônia


Meu céu tem úlceras causadas pela minha vontade de conhecer o que há lá fora, mas em vez de vislumbres, eu só recebo a dor. Meus dendritos são raízes fortes cravadas em minha cabeça; enxaqueca. Minhas digitais causam-me asco, espirais infinitas e ululantes do ser-eu que tanto quero não-ser. Sonhei com todas as armas deste mundo apontadas para mim, mas ainda respiro. 

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

desculpa, mãe.

Recebi o presente da vida, mas ainda não descobri como desembrulhar sem rasgar tudo. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

De eras

Se retira da cena, então
A quase-noiva.
Na ponta dos pés. 
Fugindo da platéia inexistente
Nunca teve um anel, 
E seu véu é sua cegueira. 
Contou
Folha por folha
Como envelhece a laranjeira
E aprendeu que a paciência não é considerada
Foi expulsa
Sua coroa onírica está jogada
Julgada
Por amar mais que o seu ser permitiria
Chorou um rio inteiro
E plantou-se em uma ilha
Contou 
Floco por floco
Como a neve cai do pinheiro
E descobriu que mesmo com seu calor
Não é desejada.
Amargurada.
Abraçou o cancro
Que lhe sai do corpo
E a prende ao altar que nunca lhe pertenceu
Desfaleceu.
Exausta, dá-se conta de algo
Por trás de cada quase-noiva
Neste mesmíssimo altar
Por regra quase-matemática
Há um quase-noivo que não ousou amar.

sábado, 9 de julho de 2016

Do final, de todos os dias

Estou em chamas
Presa no vazio profundo
Tome, segure meu tesouro
Que eu não resistirei muito mais 
À derradeira queda. 
Tome, segure meu mundo
Que meu fôlego se esvai 
e minha força desaparece
Com a chegada do inexorável descanso. 
Por favor, salve meu maior bem
O único que resta de mim
O ardor das labaredas pronto queimará meu apoio
E enquanto a morte entona minha final melodia
Leve, pois, minha memória 
Para longe desta tragédia!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Um dia acordei com um farfalhar dentro das costelas
Descobri que sou gaiola
Descobri que dentro de mim vive um beija-flor.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Sobre ver

Ainda me surpreendo com o fato das folhas terem vários tons de verde. Viver em um mundo cinza faz a gente esquecer dessas coisas rapidinho.